A inspiração, essa infiel

 


A inspiração, essa infiel.

Solange Amado

 

Tudo bem. É mesmo um paradoxo. Tá na cara que a gente escreve pra se organizar, porque sem as palavras, tudo fica uma zona só.  Palavra é que nem mãe que organiza as pulsões da criança. Às vezes a palavra olha pra gente com ternura, um cicio de amor e  mergulhamos de corpo e alma no leitinho quente que brota do seio materno. Às vezes,é um custo se ajeitar nas tetas das palavras e o leite não flui. Parece que o peito secou. A gente cai numa zona morta. Alguma coisa não deu liga . O bico do peito não deu encaixe. E o que produz o encaixe das palavras é a liga da inspiração. E quando a inspiração nos abandona, não adianta nenhuma transpiração. Súplicas não adiantam, desespero também não. Ameaças caem em ouvidos moucos. Melhor deixar a inspiração em paz. Ela tem o tempo dela. Vai ser uma mixórdia, mas você vai resistir. Ninguém morre por fazer um pouco de jejum, mesmo que seja contra a vontade e contra o vento. O fato é que não tem remédio. Ninguém é genial 24 horas por dia. Tenho lido montes pela vida afora e 80% dessa produção é meia boca. Vai daí que, sem culpas. Temos um álibi. A inspiração hoje não deu as caras. A gente vai ficar devendo. Sorry.

 Comigo é assim. Às vezes me enfezo, quero discutir a relação, fico brava, vontade de partir para a valentona. Sinto que me tungaram parte das ideias. Mas logo recolho a minha valentia. É pior. Aí  é que ela, a inspiração, a liga, não vai dar as caras mesmo. Esse relacionamento precisa de espaço, e paciência. Quem disse que eu tenho? É hora de entregar a criatividade pras almas.

Também não é negócio ficar em casa arrancando os cabelos e esperando que as inspiração caia do céu por descuido de S. Pedro.  S. Pedro tá se lixando pra nós. Mande suas ideias fazerem um “rendez vous” como quem não quer nada. Guimarães Rosa diria que ela (a inspiração) aparece é em horinhas de descuido. E você abre os braços, porque não adianta essa frescura de ficar ressentida, de fazer pirraça. Ela não entende essa linguagem.

Não sei se alguém sabe. Então vou contar: a inspiração é distímica e infiel por natureza e se você topou essa relação, hay que aguentar. Um dia ela espera você com um amor total e ardente, no outro, lhe dá as costas e finge não reconhecê-la. Pior. Bota-lhe um chifre bem grande na testa. Vai dormir com alguém, às vezes com sua melhor amiga. Não adianta, você nunca vai saber com que raio de humor ela vai aparecer hoje, Pode ser que não queira nem dar um beijo de boa noite, mas na manhã seguinte, pode chegar derretida e até levar café na cama.

Conselho de amiga: não ligue o foda-se quando ela refuga ou demora para aparecer. O importante é não entregar os pontos. Também não é preciso uma total vassalagem. Ela é matreira. Ponha um boné, pegue a enxada e vá cavando seu chão, se vai sair na China ou se vai descobrir petróleo, não importa. O objetivo é mostrar pra inspiração que quando ela voltar, se ela voltar com o ovo já desvirado, você está a postos. Meio caminho andado.

Nunca é fácil. Quando a inspiração negaceia, dá uma esnobada, a tentação é de mostrar que a gente não precisa dela. E é aí que mora o perigo, porque a gente precisa.

Numa relação comum, ninguém precisa aguentar o comportamento desparafusado do cônjuge.  Quanto mais rápido ele for plantar batatas melhor. Pra isso existe a lei Maria da Penha. Com a inspiração é diferente. A relação é de corno manso mesmo. Ela vai ditar os termos.

Não tenho o direito de me sentir enciumada quando a inspiração dorme com alguém e produz um filhotinho delicioso. Esse rebento-poema podia ser meu. Mas engulo o sapo. Ela tem suas preferências. O objeto do desejo nunca é o mesmo. Nem sempre ela quer me engravidar com alguma ideia importante. Foi caçar seu prazer em camas alheias, com alguém mais competente.

Ave Maria! Essa toada tá me cheirando a auto-ajuda.  Esse filhinho bastardo tá cheio de necessidades especiais. Mas não vou deixar que o fracasso me suba à cabeça. Amanhã, quem sabe!!

 

 

 

Maria Solange Amado Ladeira        -   24/03/20

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Os arautos do apocalipse

 


Os arautos do apocalipse

Solange Amado

 

“A vida é como um lobo. Se ela sentir que você está com medo, ela ataca. Tem que olhá-la bem dentro dos olhos e seguir em frente. É sua única chance”.

Não se assuste. É só a fala de um filme cujo diretor não tem nada pra fazer. E sabe direitinho o que fazer. É ruim de ela chamar no braço um lobo faminto. Com certeza ia botar sebo nas canelas. De qualquer maneira, são favas contadas que ela ia servir de petisco saboroso para o dito animal. Não que ela tenha a intenção de se encontrar com um. O cara do filme é da Turquia. Não sei se lá tem lobo. Por aqui, nesse Brasil varonil tem. E não faltam malucos e ideias idem. Ela desistiu do filme e da teoria besta.

Muda de toada e vai ver os zaps com que foi abençoada nessa manhã ensolarada. Um sujeito que se intitula “químico autodidata” Joga por terra esse negócio de ficar passando álcool em gel, cujo, no seu entender, vale menos do que nada.  A bola da vez agora é o vinagre. Um país inteiro cheirando a vinagre. Vai ter de se acostumar. Fora que o cocô tem covid e é melhor entrar no banheiro com todo o equipamento de proteção hospitalar pra fazer o número 2. Nessa toada, não há tatu que aguente!

Os arautos do apocalipse estão afiados nas redes sociais. A TV não fica pra trás. Os cabelos dela ficam em pé. Além de ter de encarar um lobo faminto e se envinagrar toda pra encarar as ruas, melhor fazer um estoque de bananas. Vamos que resolvam fechar os supermercados e padarias todos os dias. Sem banana não dá pra viver. Verdade é que a Farmácia do lado da sua casa já está vendendo macarrão. Tem macarrão lisinho, torcidinho, enroladinho. Melhor estocar macarrão também. Vai que...

A vizinha sai pra comprar sorvete. “Uai! Mas você não gosta de sorvete!”. “É, mas domingo supermercados e padarias vão ficar fechados!”. Faz sentido, pensa a velha senhora. O pânico não dá espaço pra lógica. A mídia deita e rola. Solta o elefante na loja de louças.

O sobrinho de 9 anos telefona: “Tia, acesse o meu canalzinho com meu pai, e dê o seu like!”. É ruim, hein! Ele não sabe que se ela penetrar fundo no mundo digital, periga receber na cara o bafo de 2.000 anos de algum Tutancâmon pela frente. Nessa caverna ela prefere não mergulhar. Fica nas preliminares, de vez que sempre se perde naquele labirinto. Fica pra outra vez, embora a causa seja nobre.

No mais, ela não perde a esperança de escapar da pontaria do covid. Há pouco tempo, leu a biografia do De Gaulle. E viu lá que uma vez, contrataram um atirador de elite para assassiná-lo. O homem era fera na pontaria. A coisa foi planejada para acontecer  durante uma cerimônia pública de entrega de medalhas a personagens que não interessam a ninguém. O atirador  se posicionou cuidadosamente, mirou bem na cabeça do De Gaulle e puxou o gatilho. Acontece que o então Presidente da França era um homem muito alto e o recebedor da medalha era bem mais baixo. De Gaulle teve que se curvar bastante pra prender a medalha no peito do gajo. Aí a bala passou zunindo acima da cabeça dele.

Ela não tem a estatura de um De Gaulle, mas quem sabe?

E alguém aí tá sabendo por onde anda a nuvem de gafanhotos que vinha da Argentina? Podem se preparar! Por falta de pretexto, ninguém deixa de entrar em pânico. O terreno é fértil.

 

 

 

 

Maria Solange Amado Ladeira          -31/03/2021

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Suspense de outono

 


Suspense de outono

Solange Amado

 

A tia começa a sentir sono. Passa vagarosamente a página do livro. Sofre de um langor outonal. Será que alguém já morreu de preguiça?

O livro, um tijolo de 500 páginas de suspense, foi escrito a quatro mãos. Não sei de quem foi a péssima ideia. Mas fica evidente que os autores se revezam. Um escreve o capítulo um, o outro, o dois. E assim sucessivamente.

De cara, está claro que os capítulos ímpares são mais bem escritos. O autor tem mais cancha pra coisa. Vai costurando a história de maneira coerente, e o leitor vai salivando atrás. Os capítulos pares só avacalham  a construção do capítulo anterior. Criam tantos personagens novos que a memória idosa da tia, mais chegada a uma cadeira de balanço, tem dificuldade em fixar. Desfilam bandidos em inglês, búlgaro, croata, russo e quem mais vier.

Por enquanto, a polícia de Nova York está atrás de um ladrão que já roubou onze caixas-rápidos em Manhattan. As câmeras de segurança não conseguem pegá-lo. Ele se disfarça muito bem. E no final de cada operação, mostra o pênis para as câmeras, numa clara atitude de deboche aos tiras novaiorquinos. Literalmente, mata a cobra e mostra o pau. A mídia vai ao delírio, a polícia se desespera,  e a tia só quer ver o circo pegar fogo.

A única pista que os homens da lei possuem é que o cara é circuncidado. O que, vamos e venhamos não é uma informação muito preciosa. Provavelmente, trata-se de um judeu, o que não é grande coisa, primeiro que a população judia no país é imensa, e até onde se sabe, não andam pelados pelas ruas.

OK. Se fosse ficar só nessa trama seria simples. Até a tia tem umas teorias de como pegar o peladão dos caixas-rápidos. Mas num livro de 500 páginas, haja peladões e caixas-rápidos pra sustentar tantos capítulos! Vai daí que a memória da tia já começa a fazer água lá pelo décimo capítulo (e são 72!).

Ela não sabe como é que vai gravar  quem é quem, ou melhor, quem matou quem, qual país traiu o outro, quem era amante de quem. E por que. É um ninho de ratos. Fede, mas é bom. Pelo menos a tia, que tem um gosto duvidoso, ama esse bas fond. Marguerite Duras também. Ela tem até um livro chamado “Outsider”. Gosta pra caramba dessas quebradas. Ambas, Marguerite Duras e a tia detestam pessoas respeitáveis e impolutas. Tirante Madre Tereza de Calcutá, é claro.

Alguém perguntaria o  que uma coisa tem a ver com a outra. Marguerite Duras vivia em Paris, bebia horrores, era talentosa e dava uma banana pra o mundo. A tia vive em Belzonte e come banana. A semelhança é pífia, tirante a de gostarem de histórias de detetive e de anti-heróis na vida.

Então é isso, leitores, a curiosidade matou um gato. Recolham-se! Ainda faltam 62 ca

pítulos. Se forem bonzinhos, ela revela na próxima semana a identidade do circuncidado. Por enquanto, vem aí o décimo primeiro capítulo, que é ímpar, portanto promete alguma novidade.

Só vai adiantar que já teve uma satisfação perversa no capítulo cinco. O detetive-chefe, herói, másculo e quase incorruptível da Polícia de NY revelou-se tão desastrado na cozinha quanto ela mesma. Ninguém é perfeito. Ô glória!

 

Maria Solange Amado Ladeira         07/04/2021

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Viver em pecado

 

Viver em pecado

Solange Amado

 

Ela abre os olhos para o mundo. Já perdeu a noção dos dias. Tanto faz. Mas por um capricho do seu senso de orientação, sabe que é sexta-feira. Sempre soube que é sexta-feira como num passe de mágica. Ou da sua preguiça. É dia da faxineira. Não precisa fazer a cama, não precisa lavar as vasilhas, nem tirar a poeira dos móveis, nem aguar as plantas. Sem culpa.

Hoje não tem a mãe internalizada dando ordens: não deixe a cama desarrumada! Pratos lavados! Nem sonhe em ficar de pijama! E ela vai no piloto automático. Mas não hoje. É sexta-feira. Dia da faxineira.  Que, por sinal, toca a campainha. Ô benção! E ela  vai abrir a porta ainda de pijama.

As duas vão envelhecendo juntas como num casamento mambembe, há pelo menos 30 anos.

A mulher entra e de chofre solta esse nonsense: “Você sabe, né? Que antes de transar tem de ter casamento!”. A patroa sabe direitinho de onde saiu a abordagem intempestiva. Na véspera, ela havia telefonado tarde da noite. A velha senhora já havia se recolhido ao leito e via uma partida de vôlei na TV. No intervalo entre os sets, um cara tecia seus comentários. Ela, a patroa, já está ficando expert; sabe quando há um toque na rede, invasão por baixo, por cima, bola fora, bola dentro, dois toques, discute com os comentaristas e espinafra os jogadores quando sacam pra fora. E diverge da arbitragem. Em alto e bom som. Que seja. Fala sozinha sim. E quem não fala sozinho nos dias de hoje que atire a primeira pedra!

Mas voltemos à afirmação intempestiva da faxineira. Por certo ela dormiu com uma pulga atrás da orelha. Macacos me mordam se a patroa não tinha uma companhia noturna!...

Ao atender ao telefone na véspera, a idosa estava no meio de uma argumentação com o juiz de linha. Claro ele marcou um ponto injusto contra o seu time. Ela levou o fone às orelhas no meio de uma diatribe indignada contra aquele senhor. Do outro lado, a faxineira perguntou: “Onde você está?”. “Na minha cama, uai!”. Foi a resposta. “Quem está aí com você?”. “Meu travesseiro, oras!”.  Fez-se um silêncio incômodo, a faxineira deu o recado e desligou rapidinho nem um pouco convencida.

Agora, suas suspeitas se materializavam numa declaração estapafúrdia.  Quem será que a patroa estava espinafrando na véspera? Ela até sabe que a velha senhora nunca bateu bem dos pinos, mas com o passar dos anos seus arroubos vinham se acalmando. Pouco provável essa aventura sexual noturna. Mas não custava avisar. Sexo sem casamento é viver em pecado.

A patroa não deixou por menos: “Quem lhe disse isso?”. “A Bibra”, foi a resposta sucinta. “Você leu a Bíblia?” (ela não sabe ler). “Não, mas o pastor lê e conta pra gente. Se transar sem casamento vai ter de acertar as contas com o Senhor!”. “Bem”, a patroa ponderou: “você tem uma quantidade de netos e nenhuma das suas filhas se casou”. “É. Elas vivem em pecado!”. Mas a patroa não ia entregar a rapadura assim fácil. “Uai, e Adão e Eva, como iam se casar se não existia padre nem pastor? Como fizeram pra se reproduzir?”. Houve um longo silêncio, então ela soltou essa pérola: “Mas eles eram casados no cartório!”.

Bem, todos sabem, não é de bom tom ficar rindo nesses tempos tão negros, sua amiga já avisou. Mas, como fazer quando a piada cai prontinha no seu colo? Sem chance. Não é culpa dela.

 

 

 

 

 

Maria Solange Amado Ladeira           - 13/04/2021

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Ladeira abaixo

 


Ladeira abaixo

Solange Amado

Ela saiu esbaforida do elevador. O táxi já esperava na porta. Muita pressa, muita pressa, me desculpe. Os gritos a acompanharam porta afora: “ A máscara! Cadê a máscara!”. Percebeu que os gritos eram com ela. Passou a mão no rosto. Tinha esquecido a focinheira. Caracas! Faz sinal para o motorista esperar, dá meia volta, sobe o elevador às carreiras, tira a chave da bolsa, se atrapalha pra abrir a porta do apartamento, joga a bolsa na poltrona da sala e corre ao quarto onde, dentro de uma gaveta há uma coleção de focinheiras de diversas cores e feitios variados.  Veste esse “cala a boca”, volta correndo, recolhe a bolsa, joga-a nos ombros, fecha a  porta e... o lazarento do elevador já não está mais no andar.

Operação reiniciada: chamar o elevador, descer, disparar porta afora e nova onda de gritos a acompanham: “Olha a bolsa! Olha a bolsa!”. Ela olha por cima dos ombros. Caramba! Não é que a bolsa jogada de qualquer maneira sobre o sofá,”fisgou” a renda de uma almofada e a carregou com ela? Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Ela faz sinal para o motorista esperar outra vez e tenta soltar a almofada agarrada no fecho éclair da bolsa. Sem sucesso. Volta pra dentro e pede ajuda ao porteiro.

Operação re-reiniciada. Demora, mas o porteiro consegue soltar os objetos enganchados sem rasgar ou quebrar nada. Ela pede ao paciente funcionário que guarde a almofada e dispara porta afora. Joga-se dentro do táxi. Está atrasada. Tem um ônibus gigantesco buzinando atrás do carro. O motorista não está lá muito bem humorado.

Ela respira fundo, pede desculpas e vida que segue. A via é de mão única, mas o motorista está confuso. Tão desbaratinado quanto sua passageira.”Minha senhora, tá todo mundo louco, o mundo lá vai ladeira abaixo, de ponta cabeça. A senhora acredita que hoje, minha filha de 12 anos me disse: “Pai, o senhor tem certeza de que eu sou uma mulher?” o Homem está azedo. “ Vai ver é esse negócio de identidade de gênero. Tudo revirado!”.

A senhora concorda, tudo dilacerado, partido em mil pedaços. Tenta respirar fundo e botar ordem no seu caos interior. Vamos por partes, como diria Jack, o Estripador. A Inglaterra em rebuliço, como o rebelde cabelo do Primeiro Ministro Boris Johnson. Macron levando tapa na cara do povo, A Merckel pedindo desculpas públicas e ninguém se entende com ninguém. O jeito é botar a culpa nos outros. E a OMS mais perdida do que cego em tiroteio.  Já botou a senhora como uma macróbia institucional. Atentem para a última proposta a ser votada (um espanto!). A partir de Primeiro de janeiro de 2022, nos “países em desenvolvimento”, todos os maiores de 60 anos, estarão automaticamente classificados como doentes, na nova edição de classificação estatística internacional de doenças e problemas relacionados à saúde. Tem até código: MG-2A . Todo mundo de 60 anos ou mais vai ter um código que o decifra: MG2A. E estamos conversados. Pode ser que até lá a doidice esteja um pouco menos ativa. Há esperanças. Tudo pode acontecer com a sapiência dos cientistas.

Notícia boa mesmo foi dada pelo jornalista argentino Ariel Palácios. A Argentina é aquele país cujos habitantes vieram de barco da Europa, mas agora o barco tá fazendo água e glub glub a coisa tá toda alagada. O Palácios noticia que no Peru, como todo mundo sabe, houve eleições pra Presidente e metade da população se candidatou. O diferencial é que um dos candidados tem o costume de se autoflagelar todos os dias para se manter casto. Manda ver no chicote. O sacrifício não o fez ganhar a eleição, mas isso não vem ao caso. É um exemplo para os candidatos a eleição no Brasil. Fica a ideia. Ela não quer ferir susceptibilidades. Quem quer se manter casto, não há nenhuma contraindicação, mas não é esse o objetivo.  A ideia é que nossos candidatos resistam às tentações inerentes ao poder. As leis andam muito bambas, talvez o chicote seja mais eficiente. Se possível com uma esferazinha de chumbo na ponta.

Não custa nada. É só uma sugestão. Num país onde a raposa toma conta das uvas e Jack, o Estripador nem precisa trabalhar, porque até as leis são estraçalhadas todos os dias, é uma contribuição humilde. Esperamos que seja aceita.

 

 

 

Maria Solange Amado Ladeira                          09/07/2021

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Um mundo FOU

 

Um mundo FOU!

Solange Amado

Hoje a coisa tá braba. Ela se senta no quarto com algumas folhas de rascunho, uma caneta e zero ideias. Fixa o horizonte e espera que o Espírito Santo baixe. Precisa produzir uma crônica, um verso, um reverso, qualquer coisa pelamor de Deus. Mas os deuses da inspiração não se comovem. Mastiga a ponta da caneta e o olhar continua perdido no horizonte. Vai ver, o tempo comeu suas ideias. Aí babau.

É quando sua faxineira abre a porta com o aspirador de pó na mão, e a encontra com esse olhar bestificado. Espia desconfiada e começa um barulhão dos diabos chupando mais ainda o pó e as teias de aranha da cabeça da patroa. Esta protesta: “Poxa! Não vê que estou trabalhando?” “Trabaiando no que?”. “Pensando!”. “E pensar é algum trabaio?”. Lá vão elas outra vez.

A “minina” dela também pensa vez em quando. Com um tanto de papel, caneta, faz conta de “vai um” e esparrama uns escritos assim que nem a patroa. Mas é mais esperta, não fica assim “oiando” pro ar. Afinal tá no quinto ano. Da Faculdade. A patroa tenta saber que diabo de curso é esse 5 em 1. Começou  no início e acaba no fim desse ano. E ela pensa muito, com as “foia nas mão, igualim a ocê”. A velha senhora toma nota. Vai ver ainda pode trocar umas figurinhas  com a moça do 5 em 1.

A mão que maneja o aspirador não se abala e a língua não para. A curiosidade também. Enfeitando a estante, tem uma bandejinha que a senhora trouxe da França na qual está escrito: “Il n’est pas obligatoire d’être fou pour travailler ici, mas ça aide”.”Não é obrigatório ser louco para trabalhar aqui, mas isso ajuda”.  Ela remove a bandeja, tira a poeira e coloca no lugar de cabeça pra baixo. Torna a pegar e a coloca de cabeça pra cima. Não está satisfeita. Bota de novo de cabeça pra baixo. Não sabe ler, mas “conhece as letra”. Fica um tempo tentando decifrar aquele mistério antes que ele a devore. A patroa se diverte. E ela resmunga: “esse trem tá torto!”. “Torto como?” Quer saber a senhora. “Assim de banda. Essa língua é torta. Uma letra não rima com outra. Não dá liga. Tem base não. Como é que eu vou botar as coisas no lugar certo? Isso aqui é O. Eu sei.” Aponta pra palavra “obligatoire””. “Quer dizer obrigatório”, diz a patroa. “Mas as letra estão fora do lugar”, teima ela.  Aponta para um livro, “Deuil” . “Isso quer dizer o quê?” “Luto” diz a senhora. “Te peguei! Qualquer bobo sabe que luto começa com L!”.

Melhor fazer uma pausa. Desse mato não vai sair coelho. Nem desse diálogo, nem da cachola da patroa. Obligatoire é mesmo um banho pra limpar essa teia de aranha que virou o  cérebro, e essa língua torta que não endireita com nenhuma explicação.

Banho tomado, a patroa olha pra cima. A estante arrumadinha e todos os livros de cabeça pra baixo. Suspiro. A velha senhora, com os joelhos bambos se encarapita no alto da escada pra colocar em ordem “as letra”.

Lá embaixo, a faxineira ainda tenta decifrar a frase da bandeja.  Agora, a palavra misteriosa é FOU. E quando a patroa lê pra ela, ”louco”, toma uma invertida.  “Vai me enganar,isso é palavrão! Essa língua só tem palavrão! O mundo tá perdido”!

Não se sabe se a alma, mas a patroa sabe que o corpo tá limpinho, acabou de sair do banho, e concorda: O mundo tá FU. E mal pago. Além disso, fuleiro, mequetrefe, torto, manco, de banda. Aliás, de bandando, bandejando de tão FU.

É o que temos pra hoje. Uma crônica FU e mequetrefe que não chegou a lugar nenhum, mas a casa ficou limpa. Até à próxima semana.

 

 

 

 

Maria Solange Amado Ladeira              19/07/2020

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O alemão

 


O alemão

Solange Amado

 

A amiga lhe deixa na portaria um livro fininho do Fernando Pessoa. Não é dos seus poetas preferidos. Fez pouco do livreto. Não prometia nada. Deixa-o de lado.

À noite, a mesma amiga telefona e repete pela vigésima vez uma história qualquer. Caracas! Que coisa tensa.  Aquele alemão alto e loiro, o Alzheimer vem ganhando terreno cada vez mais no seu galinheiro. Negócio preocupante.

E se ele começar a flertar  com ela? Vade retro! Só que não tem escolha. O alemão e o corona andam disputando sua faixa etária. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

A única certeza é que eles andam pelas imediações. Noite dessas, chegou da rua um pouco além de uma hora respeitável para uma senhora idosa.  O porteiro, surpreendentemente estava fora do posto, e a escuridão atrás dela era ameaçadora. Enfiou o dedo na campainha e o porteiro surge esbaforido: “Por favor, me desculpe. Seu vizinho de cima (um velhinho com idade indecifrável) vai sempre a esta hora levar o lixo pra garagem. A gente tem de ficar vigiando pela câmera. Na hora de voltar ele se perde e fica vagando pelos andares”.  Santa Virgem das Virgens! Ainda bem que ela não leva lixo pra garagem, muito menos em horas remotas. Mas ela e o velhinho têm em comum os joelhos cambetas. Um incômodo que os irmana.

Cala-te boca! O alemão ontem deu uma de desaforado. Mostrou que não há segurança. Na hora de dormir ela colocou uma caneca de café com leite no microondas, enfileirou em cima da mesa os três remedinhos da noite, apagou a luz, pegou um livro e foi para o leito. Dia seguinte, toca a procurar a caneca. A danada se escondeu no microondas e os três comprimidos continuavam enfileirados em cima da mesa. Não é que o alemão passou a conversa mole nela e a levou pra cama? Não há certeza. Ela não se recorda se a noite deu algum caldo.

Resta-lhe a cozinha. Aí sim. Tem uma escolha: entre o brócolis e o repolho. Faz uma careta. Sem chance pro repolho. Tem muitas camadas. Muito parecido com os políticos brasileiros. Não há como confiar. E alemão é fissurado em repolho. Melhor não arriscar. O brócolis é um arbusto mais simpático, pequeno e modesto. Não convence muito, que nem o chuchu. Sem gosto. Mas pelo menos, ninguém é passado pra trás por um brócolis. Isso já é uma garantia. E é bom pra saúde, diz o Google. É preciso acreditar. É preciso ter esperança. Se não na sua memória, pelo menos num legume ou numa hortaliça. Ela vai, pois, de brócolis.

Pelo sim pelo não, comprou um timer. E hoje fez café. Botou a água pra ferver, pegou o timer,  um livro sobre o Ossama Binladen (a cultura inútil ensina que o nome correto é esse) e foi pro Afeganistão. Quase teve um ataque cardíaco quando o timer começou a tocar alucinadamente. Pensou que fosse a metralhadora do taliban. Mas valeu. O timer é um instrumento valioso quando a memória vai pro brejo.

E aí, a solução foi pegar o livreco do Fernando Pessoa. Já que a memória anda se escafedendo, o alemão não lhe dá tréguas em seu assédio sexual, a melancolia, a dúvida e a insegurança a cobrem soturnamente como uma burca, nada como desenterrar esses versos de Pessoa:

                             “Se depois de eu morrer

                               Quiserem escrever minha biografia

                               Não há nada mais simples

                               Tem só duas datas –

                               A da minha nascença e a da minha morte

                               Entre uma e outra, todos os dias são meus”.

 

Pelo menos por enquanto. Sem garantias.

 

 

 

 

 

 

Maria Solange Amado Ladeira     -   27/08/2021

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