Útil ou inútil
Solange Amado
A amiga lhe telefona. Dona de casa perfeita, está se
esbaldando com essa quarentena. Já etiquetou o guarda-roupa, arrumou todas as
gavetas duas vezes, os armários da cozinha, as louças, e estava atacando o
quartinho de despejo. Lavou janelas e persianas, cozinhou por toda a semana. E
o bichinho da faxina não para de coçar.
Só o relato da amiga lhe dá urticária. Ela não tem culpa.
Quando Deus foi distribuir as prendas domésticas, ela estava no fim da fila.
Quando chegou a sua vez, o saco estava vazio. Deus coçou a cabeça. Achou que
coar café e cozinhar um ovo seria suficiente. Calculou mal. Errou feio.
Ao contrário da amiga, a dona de casa do lado de cá do fio do
telefone, sem os recursos domésticos da amiga, teve a ideia brilhante de se
vingar da quarentena.
Já que tinha de ficar presa, resolveu que, pelo menos, sua
cela ficaria enfeitada. Botou um trilho de mesa bem caro, almofadas bonitas no
sofá, toalhas novas no banheiro, branquinhas e bordadas. Tudo supimpa. Sua
prisão ficou nos trinques. Até...
Até que sem faxineira, chegou o dia de lavar aquelas
belezuras. Suas parcas prendas domésticas não lhe permitiram perceber que não
se pode misturar roupas brancas com outras coloridas ou vai, como diz a
faxineira, “misturar as cô”. Colocou tudo junto na máquina. Pois é, agora, suas
lindas toalhas brancas estão cor-de-rosa bebê. Caracas! Ô vida!
Melhor voltar para um terreno conhecido. Começou a desbastar
o armário onde guarda os livros “que um dia vai ler quando tiver tempo”, e foi
percorrendo tudo que nem traça. Um dia, quando a ocasião se apresentar, ela
arruma os outros armários. Não se pode contrariar a natureza.
Mas fica aquela nostalgia. Não entende porque Deus a pulou no
quesito “habilidades na cozinha”. Tem uma amiga que adora reunir os amigos em
torno de um fogão cheio de delícias de sua lavra. Fica sempre vermelha de
inveja e humilhação. Ciúme não, porque ciúme é roxo.
A irmã lhe telefona: “é fácil cozinhar, é só olhar na
internet”. E aí é pior. Descobre que não tem vocabulário pra esse trem de
cozinha. Primeiro tem de descobrir o que é botar em “banho Maria”, “marinar” e
outras milongas. E “ao ponto”? Tremendo mistério! Claro, na vida ela já viu
pessoas “no ponto”, naquele momento preciso em que Deus é servido. Mas com
comida, isso é meio sinistro.
A dona de casa anda passando em revista seus talentos. Será
que possui algum? Deus foi bem parcimonioso com ela nesse quesito. Claro, está
falando em algo “útil”, como dizia o pai, que olhava desconfiado os “talentos
inúteis” da filha. Será que ela poderia sobreviver, por exemplo, numa crise de
pandemia com tão poucos recursos “úteis”? Poderia fazer tortas, chocolates, bolos,
costurar, bordar, tecer, consertar a máquina de lavar que quebrou, a
torneira da cozinha que está pingando?
Lembrou-se de sua avó, que era baronesa, tocava bem bandolim
e lia. Eram seus grandes talentos. Casou-se com um cara bonito, inteligente e
pobre. Deu no que deu. Sua vida foi passada entre fraldas, panelas e roupas da
filharada pra lavar. Daí, enrolou o bandolim e o escondeu. Desistiu dessa arte
inútil. Um dia, a neta o encontrou num armário alto e mofado. Tinha uma lesma
gosmenta se arrastando dentro dele. Não tinha cordas. Era mudo. Mas ainda era
um belo instrumento. Com aquele traseiro arrebitado feito de madeira nobre.
Ela, a avó, sabia tirar dele um som magnífico que a levava pra bem longe das
questiúnculas da dona de casa que ela nunca foi. O útil levou a melhor.
A vida da avó foi essa dicotomia do útil e do inútil. A neta deve ter herdado essas
questões atávicas.
Ela até se lembra de, quando qualquer das moçoilas da família
aparecia com um novo pretendente, a avó resumia a questão em uma pergunta :
“qual instrumento ele toca?” Um poeta pobre, um tocador de bandolim, um
escritor perrengue? Ou alguém com “berço” e um sobrenome ilustre? Preto no
branco. Útil ou inútil?
Pois Freud, que dispensa apresentações, se mordia de inveja
dos poetas. Trocaria de lugar, se pudesse, com aqueles que tinham a habilidade
de fazer mágica com as palavras. Vai que tem alguma utilidade num mundo
sombrio?
Maria Solange Amado Ladeira 14/04/2020
www.versiprosear.blogspot.com.br
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